Elizabeth
Se tivesse percebido mais cedo que o bar mais fixe fosse noutro lado da cidade, juro que nunca sairia do meu quarto.
Foram três cansativas horas de viagem. Aquilo era de mais.
Dificilmente encontramos um lugar para estacionar o automóvel. Tudo estava cheio, entrava um monte de gente, não havia uma fila fora do edifício só porque o bar parecia ser dos ricos.
A entrada não tivemos problemas, apesar de só ter-mos 16 anos, e entravam a partir dos 18, a nossa altura e os saltos altos de 12 centímetros fizeram perfeitamente o trabalho.
Olhei pelos lados, tudo era requintado de tal maneira.
Primeiro que tudo o edifício estava mesmo em muito bom aspecto, nada de graffitis e essas coisas todas. No parque de estacionamento eram só automóveis novos e das mais variadas marcas.
-Ei! Anda lá. Descontrai um pouco – sussura-me a Aby.
-Descontrair? Nestas condições? Para onde me levaste? – sussuro também um pouco nervosa, sem saber muito bem porque.
-Ah, pois claro. Sou sempre a má da fita, mas isso minha querida, não me afecta nada. Por isso é melhor descontraíres se não queres que as minhas presas cravem-se na parte traseira do teu corpo, está bem?
Não consegui dar uma resposta decente, balbuciei um “está bem” e comecei a passar por aquela gente toda, que dançava sem parar.
Cheguei ao balcão.
O barman sorriu.
Não devia ter mais de vinte cinco anos, quer dizer, um cabelo castanho, olhos igualmente castanhos, um sorriso de engatar qualquer uma conta certo?
Resumindo e concluindo: Todo bom!
A Aby também sorriu, e pediu duas tequilas.
Ela não se fartava de beber. De coca-cola, vinha para martini, depois para vodka e muito mais. Não é que bebesse muito, mas para ela se era para divertir-se, tinha que ser em grande.
Escutei a música. Era típica de uma discoteca. A Aby pegou-me pelo pulso e puxou-me para a pista da dança.
Eu já descontrai mais um pouco, e já comecei a divertir-me. A dançar ao ritmo da música a Aby perguntou-me:
-Então? Na descontra agora?
-Claro – sorrio, tanto tempo com ela já me habituei.
-Eu disse, que irias gostar!
-Pois, mas podia ser mais perto não achas? – perguntei sorrindo.
Ela riu-se.
-Vá lá! Este é um dos melhores. Olha, aqueles dois, não param de olhar para aqui, que dizes?
Sigo o olhar dela.
Vi dois rapazes que sorriam, e um deles acenou. Era moreno, os dentes extremamente brancos, o outro era também moreno, mas mais escuro, ambos eram bonitos e vestiam calças de ganga e t-shirt. De uma escala de 1 a 10, podia-se dizer que ganhavam um 8.
-Ei! – deu-me um empurrão – é feio olhar dessa maneira para as pessoas.
Olhei para ela a sorrir e lancei-lhe um olhar que dizia: “sério? Aprendi contigo”.
Quando chegamos ao balcão o barman meteu a nossa frente dois copos de martini.
-Desculpe! – disse rapidamente – ainda não pedimos nada!
Ele sorriu.
-Ofereceram. Aqueles dois – diz, limpando um copo e apontando com o queixo para os dois rapazes que minutos atrás olhavam para nós.
-Oh, que queridos – sussura a Aby e acena-lhes.
Olho para a bebida, depois para os rapazes que aproximaram-se de nós.
-Olá meninas!
Sorrimos.
-Olá!
-Olá – disse eu, sem mostrar grande interesse.
-Como se chamam? – perguntou a Aby, bebendo da sua bebida.
-Alex.
-Mike.
-Prazer – disse eu e a Aby – Obrigada pela bebida – agradeci.
-Então e de onde vieram? – perguntou o Alex.
-De…
-De longe – interrompi rapidamente eu.
A Aby lançou-me um olhar inquiridor, mas eu não liguei.
Não sei porque, tinha uma sensação estranha de algo estar mal com eles. Não me inspiravam confiança.
Não eram verdadeiros, cada sorriso que mostravam, cada gesto que faziam e cada palavra pareciam treinadas várias vezes e decoradas. Continham uma centelha de ódio, ou então era a minha imaginação. Era melhor jogar pelo seguro e não dizer nada.
-De longe? – repetiu o Mike – então não são daqui?
-Não – respondi com um sorriso forçado.
Para a nossa sorte, ou talvez para o meu azar, o telemóvel da Aby tocou, ela retirou-o e olhou para o ecrã.
-Desculpem, vou sair, Liz esperas? – olhei para ela, a pedir explicação, mas ela limitou-se a sorrir e sussurar-me “N”.
Voltei a olhar para os rapazes. Lindo! Ela tinha-me deixado, naquele sítio horrível, ainda por cima com não sei quem.
-Chamas-te Liz? – perguntou o Mike.
Olhei para ele. Poderia confiar nele? Era um tipo que parecia, ou talvez não de confiança.
Sorri.
-Sim.
-E o da tua amiga?
-Kelly – conclui.
Eles escusavam de saber pelo menos o nome dela. Sei que se eu lhe chamasse de Kelly, ela matava-me logo a seguir, mas não podia fazer nada, não é?
-E vocês? São de onde? – inquiri. Eles trocaram um olhar confuso. Bingo! Pensei. Havia mesmo algo de errado com eles.
-Nova Orleães – disse o Mike.
-Califórnia - disse o Alex.
Sorri malandra.
-Então? Como ficamos? Califórnia ou Nova Orleães? – olhei para eles e bebi um pouco da minha bebida.
-Califórnia – respondeu o Alex.
-Que fixe! Eu também já fui a Califórnia! Aliás! Fui lá no Verão passado e amei – menti. Normalmente conseguia faze-lo na perfeição. Apesar de não ser muito mentirosa.
-Sim, viver lá é muito bom.
O Alex aclarou a garganta e perguntou:
-Queres mais alguma coisa?
-Não obrigada – respondi.
Os dois sorriram.
O Mike olhou pelos lados com que a procura de algo e depois disse.
-Pedimos imensa desculpa por deixar-te, mas precisamos de buscar uma coisa ao carro. Voltamos logo. Pode ser? – pisca-me um olho e mostra-me os dentes que eram um pouco aguçados.
-Espero – menti.
Enquanto afastavam-se, bebi mais um gole de Martini.
Esperava sim. Pensei sarcasticamente.
O que iria fazer agora era procurar a Aby e voltar para a casa. Agora a questão era porque ela estava a demorar tanto tempo?
Resolvi ir a procura dela, depois de passarem mais 20min de espera.
Nenhum dos rapazes apareceu, e a Aby também não.
Contornei aquela gente toda encaminhando-me para fora do edifício.
Cá fora estava tudo silencioso. Não havia ninguém. Nem sinal dos três.
Dei mais umas voltas pelo parque de estacionamento, depois voltei para a discoteca. Pode ser que eles tivessem voltado. Aproximei-me outra vez do balcão, como sempre o barman sorria.
-Olhe desculpe, nenhum dos rapazes que me ofereceram um copo de Martini apareceram?
-Quais rapazes?
-Aqueles dois. Que estavam a conversar comigo e com a minha amiga.
-Hum, desculpa linda, mas não me lembro de rapazes nenhuns. Lembro-me da tua amiga e de ti, do resto peço desculpa.
-Mas…- comecei depois olhei para o barman, ele não se lembrava.
Saí de lá para fora e ainda perguntei a mais alguns, mas todos só se lembravam de mim e da Aby.
Cheguei ao carro em pânico, não consegui encontra-la, não conseguia encontrar o Alex e o Mike, então nada foi minha imaginação.
Eu não me tinha enganado. Eles aproveitaram o fato de ela ter ido falado com o Nigel, e eu estúpida por ter deixado lhes sair e não ter reparado antes.
Sentei-me ao pé do carro e comecei a chorar.
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