sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Capítulo 16

Aby
Abro os olhos. Foi a primeira coisa que fiz. Não havia luz praticamente nenhuma, ou então eu estava a ver mal.
Os meus pulsos doíam-me como não sei o que. Era uma dor desgastante e horrível. Olhei para cima. Estava amarrada a uma coisa qualquer, os pulsos estavam atados com uma corda que me aleijava a pele.
Fiz força. Não consegui libertar-me.
Concentrei-me. Imaginei que o meu corpo mudava, transformava-se, mas nada, nada de nada. Não me transformei.
O que estava a acontecer comigo? Não tinha força nenhuma. Tentei lembrar-me de alguma coisa.
Tinha saído para fora, andei pelo parque de estacionamento a conversar ao telemóvel com o Nigel, depois desliguei, senti algo doloroso nas costas e pronto. Não me lembro de mais nada. Agora tou aqui. Já agora, aqui onde? – pensei.
Observei a sala onde estava.
Não havia janelas, era tudo de pedra, tudo cinzento. Havia uma lâmpada com uma luz fraca que iluminava pouco. De certeza que os donos disto, não tiveram dinheiro, pelo menos para melhorar o sítio mais horrível em que estive.
-Vá, Aby, tu consegues! – Balbuciei para mim e fiz força para tentar libertar-me.
Guinchei de dor.
A corda estava mergulhada num líquido qualquer, que me queimava a pele, a queimadura que ficava era do 3º grau, a pele desfazia-se e refazia-se rapidamente, o sangue escorregava-me pelos braços. O meu top novinho em folha estava estragado. O processo era doloroso. Contive-me para não gritar de dor.
Lembrei-me do episódio em que o Stefan foi apanhado e torturado pelos vampiros da igreja, que queriam vingança. Esse pensamento arrepiou-me.
Ouvi uns passos que vinham na direcção daquela masmorra, fiquei em silêncio.
A pesada porta de ferro abriu-se, e fiquei admirada com o que vi. Pela porta entraram o Alex e o Mike.
-Alex? Mike? O que faço aqui? Onde está a Liz?
-A tua amiga não foi precisa, precisávamos de ti. – disse o Mike.
-Libertem-me – exigi – isto dói!
O Mike riu-se sarcástico. O riso era arrepiante. Vi a faceta real dele.
-Não és tu que mandas aqui! – as palavras eram como punhais carregados de ódio.
-Para que precisam de mim?
Os dois riram-se, mas falou o Mike.
-Para te matar. Matar a última pretendente ao trono e guardiã do poder, mas antes disso tirar-te esse poder.
O sorriso dele não era nada amigável, encolhi-me toda.
Eu não podia ser a guardiã do poder. Nem sabia que poder era esse. Eu era uma das guardiãs, mas da princesa, aquela que morreu juntamente com a família real.
-Não sou nada disso – gritei zangada – Libertem-me já!
Ao dizer isso levei um murro na cara. Tive que me conter, para não gemer de dor.
-Já te dissemos! Tu não mandas aqui. Por isso é favor ficares calada, se não quiseres estragar essa beleza. – rugiu o Mike.
-Esta beleza não é para os teus olhos – disse sarcasticamente.
Ele levantou outra vez a mão, mas na sala ouviu-se um:
-Parem já!
A voz arrepiou-me ainda mais. Pela porta entrou uma mulher, ou melhor uma rapariga, bonita, vestia um vestido elegante azul escuro que lhe colava-se ao corpo bem formado. O vestido era tão mini, oh meu deus! O cabelo era preto liso que ia mais a baixo dos ombros, o resto era belo e os olhos eram tão castanhos que pareciam pretos.
Nunca admirei uma beleza daquela. Não era o facto de ter inveja, é que os olhos faziam-me lembrar uma cobra pronta a atacar.
O Mike sorriu maravilhado, como se fosse uma criança que acabou de ver um gelado que ele tanto queria. O Alex tinha os traços do rosto agressivos, mas também era belo, ambos curvaram educadamente a cabeça, mas só o Mike é que sorria.
-Perfeito! – exclamou com um sorriso que mostrava uns dentes brancos e um pouco aguçados – encontraram a guardiã.
Observou-me de cima a baixo demoradamente. Se conseguisse transformar-me a cabeça dela já estava no chão e o corpo do outro lado da sala. Metia-me nervos aquela rapariga.
-Libertem-na. Tratam dela não fugir e aparecer a mesa às horas. - mandou e saiu da sala elegantemente.
-O que ela é? – perguntei ao Alex.
Pelo que percebi, ele gostava tanto de ficar ali, como eu. Era mais calmo, e pelos vistos mais letal.
-Vampira – respondeu, avançando para mim, com um punhal.
Olhei ameaçadoramente para ele, quando ele aproximou-se de mim. Mas fez o que eu menos esperava. Libertou-me. Caí no chão e aleijei-me. Não tinha força nenhuma nos braços. Sacudi a corda e observei os pulsos. As feridas estavam a sarar-se outra vez, os pulsos estavam negros avermelhados.
-O que me meteram? Porque isto tá assim? Isto aleija! – disse desesperada.
Nenhum dos dois respondeu. O Mike já tinha saído, pelo que na sala só ficou o Alex. Graças a deus.
-Existe algum tipo de relação entre eles? – perguntei.
Ele demorou um pouco a responder. Olhou para mim ainda alguns segundos depois desviou o olhar.
- Membros da família real, utilizam-nos como escravos. O Mike, apesar de não o querer admitir é um escravo da Adamenteia. – respondeu arrumando as coisas.
-Adamentei? – perguntei a rir-me – que raio de nome?
Ele lançou-me um olhar zangado, por isso deixei de sorrir e encolhi os ombros.
-Então? Ela é da família real não é? Quem exactamente?
-Ela não é bem da família real. Todos da família real morreram – depois olhou para mim – e tu também irás morrer em breve, és a última que sobrou. Acho que a tua alma reencarnou, pelos vistos.
Engoli em seco. Ia morrer? Oh meu deus! Queria casar com o Nigel, e ter uma vida perfeita. Apesar de não poder ter filhos.
-Se todos os membros da família real morreram, quem é ela?
-Ela é digamos assim o braço direito do rei e da rainha. O Mike gosta dela. Ela tem uma relação com o filho dos governantes. Apesar desse não gostar dela e só usá-la – fez uma pausa – bem, tu sabes para que – fez-me sinal para segui-lo.
-Sim, percebi. E tu? – perguntei – Parece que não gostas dela.
Ele não respondeu. Fiquei calada mas depois falei.
-Quem é que perdeste?
Ele não parou.
-A minha mulher.
-Mulher? – perguntei.
-Sim, mataram-na aos meus olhos, pelo erro que fiz. Queimaram-na na terra. Ao sol. Não pude fazer nada.
Absorvi o que ele acabou de dizer. Que horror. Não aguentaria ver o Nigel, ou até a Liz, ou o Brandon morrerem aos meus olhos.
-Porque na terra? Não estamos já nela?
-Isto é o planeta Adreô, somos imortais, e os vampiros não podem aparecer ao sol, este é um mundo onde existem criaturas que não existem na terra, mas que arranjaram maneira de lá aparecer, quando a realeza foi destruída. Aqui é sempre de noite. Para a nossa segurança.
Pensei naquilo que ele acabou de dizer.
-Chegamos – disse ele.
Parei e entrei no quarto que era o dobro do meu. Era lindo também.
-Vai tomar banho, e veste a roupa que te deixaram. A sala de jantar é pela frente e a esquerda. Aparece cedo, os donos não gostam de esperar.
Com essas palavras ele afastou-se rapidamente, sem  eu lhe poder dizer nada. Na cama estava um vestido verde bonito, com fitas no obro esquerdo, que davam ao vestido um ar elegante, ao lado estava a minha mala. Tirei de lá o telemóvel e olhei para o ecrã. Marquei o número da Liz, mas não havia rede. Meti-o de volta a mala, e sentei-me insatisfeita na cama.
Estava presa ali. O que o Alex me contou, deixou-me triste. Estava preocupada com a Liz, o que ela estaria a fazer? De certeza que me andou a procurar por todos os lados. Aqui não havia rede. Acreditando no Alex, este era um outro mundo. Eu era um membro da família real, e restava-me pouco tempo de vida.
Não consegui acreditar nisso. Era impossível. Eu não podia ser nada disso. Não me sentia alguém que tenha “sangue azul” nas veias. Aquilo era um engano, um engano muito sério.
Levantei-me ainda a pensar nas palavras do Alex e liguei a água. Enquanto que ela limpava-me o corpo, tirando os restos do sangue fui pensando.
O que o Alex tinha feito tão de errado, para se castigado daquela maneira? Era impossível. Era errado. Ver a morte da pessoa amada afrente dos olhos é terrível. O mais provável era ele querer vingança. Bem pareceu que no bar o sorriso dele era muito forçado.
Eu nunca mais iria sorrir se me acontecesse uma coisa dessas. Nunca mais.
Saí do banho, arranjei-me e vesti o vestido que me tinham deixado. O meu cabelo estava horrível. Penteei-o e arranjei-o o melhor possível. Estava outra vez as ondas, mas sentia-me bem assim.
Abandonei o quarto e passando pelas janelas gigantes, onde notava-se uma noite estrelada mas sem lua, encaminhei-me para a sala de jantar, que até não estava longe do quarto.
Entrei.

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