Elizabeth
-Não era suposto ficares sem roupa após a transformação? É que estás com ela e eu não levei nada comigo, para tu vestires – perguntei admirada.
Ela só se riu.
-Não. És tonta. Quando eu me transformo a minha roupa desaparece não sei para onde. Tipo é como se eu tivesse uma mala invisível para onde ela vai e todas as outras coisas que eu levo. Isso é vantajoso e é muito bom.
-Aham…
Fui até a cascata e sentei-me numa rocha com ela ao lado. Observamos a água cristalina e os peixes cor-de-laranja que nadavam e brilhavam ao sol que entrava ali.
-Acho que este é o único sítio daqui, onde entra o sol.
-Pois, a floresta é muito grande e as árvores são tão grandes que tapam praticamente tudo – disse a Aby.
-Sim, da última vez que cá estive, encontramos lobisomens pelo caminho Aby. Acho que devemos ter muito cuidado…
-Não me digas – sorriu-me ela irónica – eu consigo resolver o assunto. Além disso viste como sou rápida.
Abanei a cabeça.
-Pois vi.
-Doutra vez estiveste aqui? Quando o Brandon te foi procurar?
-Sim.
-Hum, e então? O que há entre vocês os dois? Já há muito tempo que não falamos sobre estes assuntos.
-Não me apetece falar sobre isso – digo, mexendo na água. Os peixes assustam-se.
-Ah, não vais conseguir mudar de assunto minha querida. Conta lá. – abanou-me ela.
-Nada de especial. Nada de parecido com o que tens tu com o Nigel – encolhi os ombros.
-Oh, vocês só se conhecem por aí a dois dias. Acho que é normal. Mas ele gosta mesmo de ti, só não sabe como dizer-to. Aliás, vocês se beijaram, deve ter algum significado certo?
-Acho que sim. Acho que também gosto dele. Mas sabes como sou, não vou ser eu primeira a dizer.
-Oh, podes ter a certeza que ele também não o vai fazer.
Levanta-se e dá uma volta a observar melhor as coisas.
Baixei os olhos. Devo perguntar-lhe porque eles levaram-na e o que queriam dela? Hum.
-Olha, Aby, o que queriam eles de ti?
-Quem?
-Eles, tu sabes. É a segunda vez que apareceram.
-Eles estão a procura da guardiã do poder. Vão fazer um teste, depois matam-na. Porque ela é a tal última herdeira do trono, que querem ver morta.
-Então é melhor ser-mos nós a encontrá-la primeiro, não quero que ninguém morra. – Afirmo.
-Sim, será melhor – olha para mim.
-Agora como? – sorrio. – é tão complicado como beijar o Alex Pettyfer na realidade. A Aby deita-se na relva macia e começa a rir-se que nem uma louca, eu sem resistir também começo a rir-me.
-Beijar o Alex? Hum. – fez ar de pensativa – sabes? Um dia deste vamos mesmo de ir a Hollywood para beijá-lo.
Ri-me.
-Hum, era mesmo bom – digo com um ar sonhador?
-Bom? Seria maravilhoso, mas para mim. Tu ainda nem o Brandon como deve ser beijaste!
Dirigo-lhe um olhar de “vai passear” e ela começa a rir-se.
-Olha, já devemos voltar, são oito horas de tarde já.
-Hum, pode ser. Mas desta vez não me apertes tanto, eu não quero morrer com falta de ar.
Semicerrei os olhos e sorri.
-Pois claro. Obrigadinha. Foi a primeira vez, por isso tá calada.
-‘Tá bem – risse ela e transforma-se.
Subi novamente as costas dela, e desta vez abracei o pescoço peludo com um certo cuidado, ela tinha razão, tinha-a apertado um pouquito demais.
Chegamos a casa as oito e dez. Era impossível, mas pronto. Tudo o que eu achava impossível estava ao meu lado. A minha melhor amiga ser uma lobisomem.
-Vais agora fazer as malas?
-Sim, vou, depois vou dormir, que já não durmo a um dia. – Digo, bocejando.
Entramos em casa, a Aby foi ter a sala onde o Brandon e o Nigel estavam a ver a televisão. Um filme qualquer. Acho que era I am number four. Com o Alex Pettyfer na personagem principal. Já o vi duas vezes, por isso subi silenciosamente as escadas entrando no meu quarto. Tirei do armário dois pares de calças de ganga, dói casacos, uma camisa e por aí umas 4 t-shirts e 2 tops. Acho que aquilo bastava. Arrumei tudo numa mala, meti umas sapatilhas pretas e brancas e mais algumas coisas para a higiene.
Estava tão cansada que resolvi tomar um banho de emersão. Olhei para as unhas que já praticamente nem tinham verniz. Ainda nem sei como a Aby não me ralhou, era ela que costumava a obrigar-me pintá-las. Enchi a banheira, depois meti para aquilo ficar cheio de espuma. Entrei lá dentro suspirando. Precisava de ter feito isto há muito mais tempo. Depois de sair, enrolei-me outra vez na toalha e fui buscar um verniz. Optei por um prateado. Pintei as unhas das mãos e dos pés e saí da casa de banho.
-AH! – corri novamente para dentro fechando a porta.
-Brandon! Que fazes aqui dentro? – pergunto surpreendida.
-Vim aqui falar contigo. Não vais sair?
-Hum, acho que não, pelo menos vira-te que eu saio para buscar a roupa está bem?
-Está bem.
-Não olhas de certeza?
-Não. Palavra imortal.
Aquilo soou-me bem. Saí novamente correndo para a cama, para buscar o pijama. Uns calções e uma camisola de alças.
-Já está. – digo, acabando de me vestir.
Ele sorri.
-Estás bonita, como sempre.
-Não gozes tá bem? Tou de pijama, o que pode haver de bonito nisso? – pergunto. Porque eu estava assim com ele? Ele elogiou-me e eu a responder-lhe daquela maneira. Ele olhou para mim, ao fim de alguns segundos encolheu os ombros e aproximou-se.
Fiquei pregada ao chão. Pela janela entrava um brisa fresca, que levantava o meu cabelo praticamente seco. Ele tomou a minha cara nas mãos e levantou-me o queixo.
-Até assim tu estas bonita – sussurou-me e deu-me um beijo.
Rodeei o pescoço dele, passando a minha mão pelo cabelo lindo e fofo dela. Os seus lábios deixaram os meus e subiram pela cara até a minha orelha.
-Amo-te.
Aquilo deixou-me sem palavras. Voltei a beijá-lo. Entreguei-me aquele beijo. Tinha um namorado perdido de bom. Claro não era só isso que eu gostava nele. Para falar a verdade gostava de tudo nele.
Puxei-o mais para mim. Andei um pouco para trás caindo com ele para a cama. Ele olhou para mim e afastou uma madeixa do meu cabelo. Devolvi-lhe o olhar a sorrir e voltei a beijá-lo. Fazia-me impressão olhar a alguém nos olhos. Ele beijou-me o pescoço. Passei as minhas mãos pelas costas perfeitamente musculadas dele. Eu queria fazer aquilo? Quer dizer ainda nem fizemos nada. Mas não. Definitivamente ainda não queria. Mas também não queria acabar agora. Só mais um bocadinho iria tirar o máximo partido daquilo. Tirei-lhe a t-shirt continuando a beijá-lo.
Abri os olhos e arrepiei-me com o que vi. O Brandon não ligou, continuou a beijar-me. Entre os cortinados que esvoaçavam ao vento estava o rapaz. Que me olhava novamente com os olhos gelados e todo vestido de preto. Abracei ainda mais o Brandon, o rapaz sorriu e desapareceu.
Afastei o Brandon que me olhou sem perceber nada.
-O que foi?
Olhei-o. O cabelo estava despenteado. Estava tão querido que deu-me vontade de sorrir.
-Nada. Ficas aqui está noite? Mas nada de mais. Nada de errado – acrescentei rapidamente e brindei-o com o meu melhor sorriso. Pelo menos era o que todos achavam.
Ele sorriu. Graças a deus.
-Vou dormir agora – avisei-o – se quiseres podes ir ver tv ou algo de género, mas depois volta.
-Ahaha, não, eu fico a dormir agora. Também estou cançado – sorriu-me.
Retribui-lhe o sorriso, desliguei a luz e deitei-me no peito dele. Ele abraçou-me e eu adormeci.
Estou num vazio, rodeado por nevoeiro, não consigo ver completamente nada, oiço um barulho e viro-me.
O rapaz de olhos azuis fita-me curiosamente. Aquilo não podia continuar assim, ganhei coragem.
-O que queres de mim? Desaparece! – gritei-lhe, mas ele só se riu.
-Quem és? – mais uma tentativa, mas nem obtive resposta – lindo, perfeito, pelo menos sabes falar?
Na cara apareceu mais uma vez o sorriso malandro e arrepiante.
-Christian.
-Christian? – repeti – oh, então sabes falar. Espectáculo – disse irónica.
Ele sorriu.
-Hum, que resmungona!
-Olha quem fala. Quer dizer, o que queres de mim? És aquele que me quase matou!
-Não sabias que eras assim. – olhou-me dos pés a cabeça.
-Assim como? – resmunguei cruzando os braços no peito.
Ele riu.
-Oh, ainda te ris. Não sabes fazer mais nada?
-Ahaha saber até sei. Muita coisa.
Olhei para ele. Dos pés a cabeça também. Hum. Para ser sincera ele era lindo.
-Então? Gostas?
Afastei os pensamentos daquela beleza fria e letal. Levantei as sobrancelhas.
-E tu um pouco convencido, não achas?
-Hum – resmungou.
-Onde estou?
-Num campo.
-Campo? Nevoeiro? Não podias ter criado um sonho melhor? Sei lá! Precisava de descansar, um prado, uma lua cheia gigante e relva linda era mesmo bom.
Ele riu-se.
-Relva? Prado? Lua cheia? Tu és o que? Acho que lês demasiados contos de fadas.
Oh! Ainda ninguém me disse aquilo, em todos os anos que vivi. Estúpido. Aquilo irritou-me tanto, que tive que fazer um esforço enorme para não lhe responder de um modo desagradável.
-Então e não podes pelo menos sair do sonho? Ficaria mais agradável. Aliás muito mais. – resmunguei.
-Pensei que te agradava ficares com um rapaz ao lado.
O que? Ele me disse isso?
-Para a tua informação eu gosto dele. E porque eu tou aqui a falar contigo? Eu quero descansar. Quero dormir. Desaparece!
Ele sorriu, voltou costas e desapareceu. O nevoeiro desapareceu também. No lugar disso apareceu um prado, com relva verde até aos joelhos e uma lua cheia que lançava uma luz prateada sobre tudo. Que visão fantástica. Reparei numa coisa prateada que estava na relva. Era uma espécie de pulseira. Era prateada, e tinha desenhos abstractos que tinham tipo letras e alguns desenhos despercebidos. Sorri e meti a pulseira na mão esquerda. Senti-me estranha, pareceu que encontrei a outra parte de mim. Hum, pelo menos melhorou bastante o meu sonho. Tinha uma aparência muito rebelde, parecia cínico e muito malandro mesmo, mas mesmo assim, tinha algo de bom. Pelo menos pareceu. Abri os olhos. Estava deitada no peito do Brandon. Voltei a fechá-los e adormeci.
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