Elizabeth
Na manhã seguinte, acordei cedo. Quer dizer, oito horas para mim era muito cedo.
Fui até a casa de banho, tomei um banho, escovei os dentes e penteei o cabelo, fazendo uma trança para o lado. Ao menos assim não ficaria a perturbar durante a viagem.
Enquanto o Brandon dormia, podia aproveitar para me vestir. Era estranho ele ainda não acordar, e ainda mais estranho estar deitado na minha cama.
Normalmente quando eu acordava ele já estava em pé. Costumava ver tv, ou então simplesmente ‘tar lá na boa no quarto dele, mas pronto. Claro que eu também acordo por aí as onze horas, por isso acho que é lógico, e também está é a segunda noite, em que tenho um sono realmente bonzinho. Quer dizer, tirando o sonho, é que nem neles me deixam em paz, o principal é que não toquem na Aby.
Olhei para o Brandon, que tinha uma respiração calma e dormia tranquilamente. Como ele era fofinho. Foi bom acordar com ele ao lado.
Lembrando-me do rapaz de olhos gelados, levei automaticamente a mão ao pulso esquerdo. Nele estava a brilhar uma pulseira linda e prateada. Então aquele sonho nada teve de irreal. Aconteceu. A pulseira era a prova disso. O rapaz consegui entrar nos meus sonhos, e foi sem eu dar-lhe autorização nenhuma. Raio de coisa? Quer dizer, eu é que sonho e ainda sofro. O miúdo irritou-me bastante, ninguém ainda me tinha posto fora de mim, daquela maneira. Agora quem me tinha deixado a pulseira era a pergunta do dia. Ultimamente só tenho perguntas, perguntas e perguntas, mas nada, nem um sinal de algumas respostas. Tínhamos que encontrar a guardiã. Isso é que interessa. Como ela é? Só sabemos que é uma rapariga. Oh meu deus. Só tenho 16 anos e com tantos problemas anormais na adolescência. Em vez de me preocupar em como arranjar uns sapatos, roupa, o cabelo e um namorado perdido de bom, para depois ir com ele a festa e todos ficarem de boca aberta (um sonho normal na adolescência), eu penso em como salvar uma rapariga que está as beiras da morte, em como manter a minha melhor amiga afastada de todo o perigo e de como eu amo o Brandon mas não sei se é a coisa certa a fazer.
Hum.
Vida maravilhosa a minha não é? Não podia ser melhor.
Olhei para relógio do telemóvel. Daqui a duas horas iríamos para o aeroporto e o Brandon nem aí para acordar.
Tirei do armário e vesti uns calções confortáveis de ganga clara, uma camisola de alças branca e umas all star que a Aby me ofereceu no meu aniversário, caras como não sei o que. Ainda tinha pensado em não aceitar, mas com a Aby isso não funcionava. Apesar disso eram lindas. Eram pretas, com fechos prateados de lado. Simples mas giras.
Cheguei a cama e abanei com cuidado o Brandon. Esse nem se mecheu. Abanei-o outra vez. Abriu os olhos.
-Bom dia. Acorda, ainda temos que fazer muitas coisas – sussurei.
-Se isto é um sonho, não quero acordar – murmurou ele num sorriso.
-Anda lá! Não é um sonho, tudo é real, mas basta acordares para veres. Rápido se não queres perder o voo a Inglaterra.
Ele abriu novamente os olhos e fez um sorriso rasgado.
Abandonei a minha cama e fui até as janelas gigantes do meu quarto ver como estava o tempo.
Lembrei-me do tal Christian que me esteve a observar. Algo nele era bom, mas também ele era assustador e quando ele olhava para mim, eu sentia-me um rato pequenino que era vítima de uma experiencia. Que treta. A beleza dele era letal. Até os olhos pareciam matar. Agora já percebo melhor a expressão : “O olhar mata”.
A manhã estava mais que maravilhosa, estava fresco. Fechei os olhos e inspirei o ar apreciando.
Não sei quanto tempo passou, porque de um momento para outro o Brandon estava atrás de mim com o braço a rodear a minha cintura. A boca dele estava perto do meu ouvido o que me provocou cócegas.
-Bom dia. Ainda bem que o sonho ainda não acabou – sussurou-me ao ouvido.
Estremeci e virei-me para ele. Estava a sorrir. Sem resistir-lhe beijei-o com uma paixão tal, que nem dá para explicar.
-Tiveste bons sonhos? – perguntou-me abraçando-me e olhando para os montes que se estendiam a nossa frente.
Dirigi o meu olhar também para lá, pensando melhor no que lhe ia dizer.
Tinhas duas hipóteses. Ou lhe dizia a verdade. Que o rapaz que quase me matou naquela manhã horrível, persegue-me e aparece nos meus sonhos tornando-os pesadelos. Apesar de não ter sido bem assim. Ele podia ter-me irritado, mas pelo menos depois ele mudou de cenário, criando aquela ilusão maravilhosa. Ou então mentia-lhe dizendo que os sonhos foram do melhor. Optei a segunda opção.
-Foram do melhor – sorri. Graças a deus, que ninguém descobria as minhas mentiras. Quer dizer, não gosto de mentir, mas neste momento era mesmo preciso.
Ouvi alguém a pigarrear, e ambos viramo-nos para ver quem era. Nem me admirei quando vi a Aby sentada no sofá com um sorriso malandro no rosto.
-Hum, bom dia gente, não sei, mas o pequeno-almoço já esta a vossa espera, ou já o tomaste Liz? – disse ela num tom de gozo. Iria matar-me. “já o tomaste Liz?”. Ela estava lixada comigo!
Peguei na almofada que estava na cadeira de baloiçar ao meu lado e atire-lhe. Infelizmente ela apanhou-a.
-Para a tua informação, as minhas reacções são como de uma gata….
Atirei-lhe outra. Essa acertou-lhe em cheio.
O Brandon deu uma gargalhada.
-Venham comer, daqui a pouco saímos – disse ela.
Mostrei-lhe a língua e dirigi um olhar do tipo “reacções de uma gata na água hem?”
Ela atirou-me a almofada que se não fosse o Brandon acertaria-me mesmo na cara.
-A isto é que eu chamo reacções de um gatinho – contraponho.
-Hum. Até que parece – resmungou e saiu do quarto.
Comecei a rir-me.
-Sabes? Ela mais tarde vai lembrar-se. E aí já não estarás ao meu lado. E sabes? Ela tem muita força – digo, olhando para ele a sorrir. Ele beija-me e depois olha-me nos olhos.
-Nunca vou ficar longe de ti. Sempre por perto.
Sorri.
***
Eramos para chegar atrasados ao voo. Se não fosse a ferocidade com que o Nigel conduzia, íamos mesmo perde-lo.
A viagem até correu bem, fiquei sempre ao lado do Brandon e ás vezes falava com a Aby, que fez mais que uma tentativa em pagar-me o erro que fiz de manhã ao atirar-lhe a almofada. Era na brincadeira, o que era fixe. A primeira tentativa foi atirar-me uma almofada de novo, mas tinha-me abaixado a tempo. No avião foi a segunda tentativa, quando ia quase me entornando uma Pepsi. Felizmente o Brandon apanhou-a antes de ela molhar-me toda.
Agora estávamos no carro e eu observava os campos verdes pelos quais passávamos. Não sei porque tinha uma paixão enorme por aquilo.
O carro ia um pouco devagar, porque aquilo era Inglaterra e lá ao meu critério é tudo ao contrário.
-Chegamos – declarou o Brandon.
Nem tinha reparado que o carro já parou. Saí e levantei os óculos de sol.
A minha frente estava uma casa enorme, branca e decorada muito bem. A volta também tinha um jardim, do qual o jardineiro estava a tratar neste preciso momento. Avancei observando tudo a minha volta. Vocês nem imaginam quão difícil é viver num mundo onde os ricos dominam. Quer dizer, pelo menos até agora do nosso pequenino grupo, os três eram riquíssimos.
Da casa saíram três raparigas, que eram talvez um ou dois anos mais velhos que eu. Uma delas a mais pequenina era pelo que me pareceu da minha idade. Sorriu-me e eu retribui-lhe o sorriso.
As três eram lindas de morrer.
-Olá – sorriu-me a mais alta. Vestia um elegante vestido curto, que ia uns dez centímetros acima do joelho. Era azul escuro e tinha um decote bem grande. Desde já digo que não gosto dela, mas retribui-lhe o sorriso.
-Chamo-me Layla, esta é a Hannah e esta é a Alyson.
Observei as outras duas. A Hannah era muito séria. Também me sorria mas com um sorriso menos amistoso e mostrava claramente que não éramos bem-vindas aqui. Ou melhor, eu e a Aby é que não éramos bem-vindas, porque ao olhar para o Nigel os olhos da Hannah brilhavam, da mesma maneira que brilham os da Layla que observa o Brandon. A Alyson era a melhor das três. Tinha um sorriso sincero e pareceu-me mesmo muito fixe. Vestia uns calções e uma t-shirt preta. Tinha um cabelo ondulado preto e olhos castanhos. Já a Hannah era loira e tinha uns olhos cinzentos, era bastante parecida com a Layla, menos na cor de cabelo, porque esse era castanho. Olhei para a Aby que me lançou um sorriso irritado. Percebi que estava zangada com a Hannah que olhava sem intervalos para o Nigel. Encolhi os ombros.
Cumprimentei as raparigas e segui-os para a casa. Lá dentro ainda era mais bonita, não dá para descrever.
-O vosso quarto meninas é lá em cima, são os dois primeiros logo a esquerda. – explicou a Alyson.
-Pois e o vosso é a direita, ao pé dos nosso – sorriu a Layla com um sorriso provocador.
Subi as escadas ao lado da Aby.
-Sabes uma coisa? Se aquela gaja mal vestida e que não sabe nada sobre a moda fizer mais alguma vez olhinos ao meu Nigel, ou tocar-lhe mais alguma vez no braço ou assim, ela vai ficar sem cabeça em um segundo e nem quero saber o que irão as outras duas pensar. Para além de mais, aquela Layla também irrita. Porque ela olha daquela maneira para o Brandon? Oh! Que nervos! – disse-me a Aby, claramente irritada.
-Eu também não gosto delas. Mas por acaso gostei de conhecer a Alyson. Sabes quem é?
-Sim sei – abriu a porta do quarto dela, que também era grande – ela também é uma das guerreiras que protegem a guardiã, é uma vampira e pode-se dizer que joga na mesma equipa que eu.
-Ah… - sentei-me na cama. E quem são elas as duas? As outras?
-Olá meninas! – interrompeu-nos uma voz melodiosa e no quarto entrou a Alyson. – Bem-vindas.
-Olá – sorri – Obrigada.
-Hum- fez a Aby – pelos vistos nem somos muito bem-vindas – disse.
Aquela miúda dizia tudo sem pensar.
A miúda sorriu.
-Elas são as ex-namoradas dos vossos amigos, ou melhor são vossos namorados não é? – perguntou.
A Aby fingiu que engasgou-se.
-Desculpa? Ex-namorada? A Hannah? OMG. O Nigel tá lixado!
-Hey, calma, nada de mais. – apressei-me a dizer.
-Foi a quanto tempo?
-Hum, o Nigel acabou com a Hannah a três anos atrás e o Brandon acabou com a Layla a mais ou menos um ano atrás. Mas tenham cuidado que nenhuma delas os esqueceu por completo. – avisou. – não queria que soubessem isso de mim, mas é melhor avisar-vos.
-Obrigada pelo aviso, mas acho que não acontecerá nada de mal. – disse.
Esperava bem eu. A Aby começou a desarrumar as malas bruscamente, estava claramente muito irritada. A Alyson saiu do quarto e eu deixei a Aby na onda dela. Era melhor não chateá-la. Entrei para o meu quarto que era um pouquito menor que aquele que tinha em casa e também comecei a desarrumar a mala. Tinha um pressentimento que ficaríamos em Inglaterra muito mais que o previsto. Pelo menos esperava bem que não.
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