Elizabeth
Acabo de arrumar a roupa que me resta e fecho a porta do armário dando um pequeno passinho para trás e abrindo a boca de espanto perante aquilo que vejo.
O enorme espelho que estava ao comprimento de toda a porta reflectia uma imagem de uma rapariga que era eu. A minha trança estava completamente desfeita devido a viajem e eu própria apresentava-me muito cansada.
Depois de jantar sem duvida que vou para o meu quarto dormir e ter umas boas doze ou mais horas de sono. Já não as tinha a bastante tempo.
Tempo onde eu era uma rapariga normalíssima que tinha discussões com os pais e odiava o irmão mais novo que não parava de chatear, aquela rapariga que tinha boas notas porque tinha um objectivo na vida, e estava formatada para o seguir. Dantes isso tudo era eu. Um eu, que agora está escondido debaixo de um monte de problemas e preocupações incomuns. Se eu dantes desejava ter uma vida sobrenatural, não era desta maneira, podem ter a certeza. Ter dons mágicos e isso, é tudo muito fixe mesmo, mas não agora, não eu. Nestes últimos dois dias só desejo paz que pelos vistos nunca vou ter.
Alguém bateu a porta e eu ajeitei o cabelo, com esperança de ser o Brandon a entrar por aquela porta e fazer-me esquecer daquilo que eu sou, e fazendo-me sentir uma adolescente normal, e sem o mínimo de problemas, cujas preocupações deviam ser os exames para o ano, mas o meu sorriso quase se foi quando pela porta entrou a Alyson, com o seu sorriso deslumbrante de um ser angelical.
-Daqui a alguns minutos é para descer para a sala de jantar – avisou-me.
Respondi-lhe com um sorriso.
-Oh, que bom, mas ainda não vou descer já. Queres fazer-me companhia? – perguntei com uma esperança sincera que ela quisesse mesmo ficar comigo e ouvir as minhas tretas da vida.
-Claro que fico – sorriu-me – começando por meter conversa, é que eu não sou boa nestas coisas – leva a mão ao cabeço em sinal de embaraço – que tipo de música gostas? – Pergunta, sorrindo.
Ri-me.
-Já somos duas. Pensas que eu sou boa a meter conversa? Isso é no que todos se enganam. Eu gosto de metal – sorrio – e tu?
-Também! Que fixe! Estou a ver que já temos duas coisas em comum a contar com o mesmo gosto de desenhos na roupa – olha para a t-shirt dela e minha e começa-se a rir.
Sem perceber a piada baixo a cabeça e rio-me também. Nas nossas t-shirts pretas estava desenhado em ambas um desenho de uma pantera com a boca aberta e com olhos dourados e com garras. Eu amava aquela t-shirt, para ser mais exacta era a minha preferida.
-Pelos vistos – digo e começo a rir-me outra vez – foi oferecida pela Aby, há uma semana atrás – digo passando a mão pelas presas a mostra daquele desenho.
-A mim não – sorri – comprei-a quando saí daqui, apaixonei-me por ela. Adoro animais, principalmente pumas, leões, tigres, panteras e leopardos – diz, sentando-se ao pé de mim. Sorrio.
-Eu não sei como te fazer esta pergunta – digo baixando os olhos e pensando naquilo que lhe vou perguntar – é pura curiosidade a sério – acrescento.
-Porque e como me tornei vampira? – Arqueou uma sobrancelha e sorriu-me.
Suspirei.
-Sim – disse, ficando vermelha não sei porque. Opa, fogo, odiava isso em mim, detesto ficar corada sem razão aparentemente boa. O principal é que ela percebeu.
-Oh, não precisas de ficar embaraçosa, claro que eu conto, não é um segredo assim tão grande, apesar de só saberem alguns, incluindo tu agora.
-Oh, obrigada, é que eu não conheço ninguém daqui e gostava como vês de saber um pouco sobre alguns, como por exemplo sobre ti, sobre a Layla e sobre a Hannah.
-Está bem – risse – Para começar a Layla e a Hannah não são do mesmo planeta que eu. Aliás elas são daqui, da Terra.
-Oh, não sabia. Então e tu és de Andrêo?
-Sim, sou. Elas são irmãs, eram umas irmãs inseparáveis até terem conhecido um rapaz, um rapaz que elas me contaram e disseram que era lindo e perfeito por fora, mas o que se veio a descobrir horrível por dentro. Utilizou-as as duas, quando elas estavam as beiras da morte, o Nigel e o Brandon transformaram-nas, porque não havia outra escolha – suspirou.
-Que horror – digo, olhando para o vazio daquele quarto.
-Eu nasci e vivi em Andrêo – sorri – tinha uma vida perfeita – até o mundo ser conquistado pelo irmão do passado rei. Ele assumiu o trono matando o rei e a rainha, e deitando as mão a filha, que mais tarde descobriu-se que morreu – disse tristemente – o irmão, apesar de ter roubado o trono, não foi marcado pelos dragões, aqueles que formaram o nosso mundo, por isso ele não tem um poder completo, apesar de possui-lo na mesma. É para isso que ele precisa da última herdeira do trono, para roubar-lhe o poder e depois matá-la. Para a protecção dela, a muito tempo atrás foram escolhidas sete pessoas, elas foram ensinadas a lutar e a sobreviver, foram treinadas para proteger a futura herdeira. Mas infelizmente nenhum deles consegui utilizar o que foi-lhes ensinado, por isso alguns revoltaram-se e fugiram para este mundo, outros tornaram-se escravos, e alguns andam pela terra a semear destruição e horror pelos países – concluiu, com um brilho demasiado triste no olhar.
Estremeci perante a ideia de matarem a pobre rapariga mas antes disso faze-la sofrer.
-Oh, que horror – disse – mas não quero falar mais disso, vamos jantar antes que alguém se chateie connosco – levantei-me e saí porta fora com a Alyson ao lado.
Desci as escadas, e entro numa sala de jantar muito bem decorada mesmo, tudo em tom de prateado e branco, era muito bonita, a mesa era grande, cabendo lá toda a minha família incluindo os primos e isso, mas apesar de tal pensamento tudo estava perfeito assim, a mesa decorava muito bem a sala, dando-lhe um ar mais original. O Brandon estava a conversar com a Layla, mas quando reparou em mim, parou e sorriu-me. Sorri-lhe também e passei o meu olhar pelo resto da mesa. A Aby estava ao pé do Nigel, pelos vistos a discutir. A Hannah olhava quer para um quer para outro, depois de alguns segundos pegou num copo e bebeu um grande gole de vinho. Ates que aquilo piorasse, resolvi meter-me na discussão.
-Boa tarde a todos! – disse sorrindo – Aby, tens um minuto? – perguntei com um sorriso forçado.
A Alyson dirigiu-se a mesa, e a Aby olhando-me um pouco furiosa, lá cedeu e veio ter comigo. Afastei-me o suficiente para ter a certeza que ninguém nos ouvia.
Viro-me.
-Aby! Que raio que estás tu a fazer? Porque estás a discutir com o Nigel, podes explicar-me?
-Não estou a discutir com ele – resmungou cruzando os braços no peito.
-Ai não? Então eu sou cega e surda! – resmungo também.
-Prontos ‘tá bem! Que queres que te diga? Aquela rapariga põe-me os cabelos em pé! Odeio-a, neste curto período de tempo que a conheço, falando com ela só duas vezes! Porque ela se mete com o Nigel? Afinal, foram ou não foram ex namorados? Ex, não são namorados! Os olhinhos que ela lhe faz já bastam para ela merecer morte! – rebentou, dizendo-me tudo o que realmente pensava.
-Calma Aby, a sério. Deixa ‘tar. Tu sabes perfeitamente que ele só gosta de ti, e de mais ninguém, por isso não fiques assim e acalma-te. Ela não o consegue esquecer, porque realmente ela foi transformada em vampira pelo Nigel, e tão mal como pareça a Layla foi pelo Brandon. – vendo a cara agora séria dela, e sabendo que a fúria estava indo, dando lugar a uma confusão e desapontamento continuei – a Alyson me contou, que o Brandon e o Nigel encontraram-nas aqui na Terra quase mortas, como tiveram pena delas transformaram-nas. Eles estão juntos desde muito tempo Aby, e para mais incrível que pareça nenhuma de nós consegue fazer o contrário, elas para sempre lhes vão ser gratas e isso sem ter em conta que já tiveram relação.
Ela pestanejou.
-Está bem. Convenceste-me. Desde que ela não faça nada que eu não goste tudo bem, mas agora já chega de uma lição de moral e anda comer que eu estou cheia de fome – diz, encaminhando-se para a sala de jantar.
Fiquei ao pé do Brandon e a Aby ao pé do Nigel. Estava feliz por pela primeira vez na vida, as minhas palavras lhe tinham realmente entrado naquela cabecinha. É que normalmente tudo o que eu dizia ela deixava passar. Conversamos animadamente ao jantar, que foi saboroso. A seguir levantei-me da mesa e dizendo um até amanhã e boa noite ao Brandon fui para o quarto.
Tomei banho e vesti o meu pijama, liguei o mp4 e meti na minha música preferida dos Evanescence, Bring me to live. Não sei porque simplesmente gostava dela.
Vendo no ecrã do telemóvel que já passava de meia noite, tirei os fones e arrumei-os na gaveta da mesinha de cabeceira. Tinha uma sms da minha mãe a perguntar como eu estava e se o voo correu bem. Fechei os olhos e ralhei-me mentalmente, porque tinha-me esquecido completamente que devia ter ligado ou mandado algo a minha mãe depois de chegar. Escrevi rapidamente uma sms e enviei. Felizmente foi entregue.
Enrolei-me no cobertor fofinho e adormeci.
Desta vez a abrir os olhos, pisco várias vezes para me habituar a escuridão e a suave luz da lua que entra pelas janelas do meu quarto.
Não sei o que me acordou, porque de facto, neste momento estou sentada na cama a respirar rapidamente, como se tivesse a correr durante uns bons vinte minutos numa das aulas do nosso professor de física. No relógio estavam marcadas duas horas da manhã. Perfeito. Só tinha dormido uma hora, ou nem isso.
Como de certeza que não ia adormecer por enquanto, saí da cama e fui silenciosamente até a porta das traseiras pela casa. Quando alcancei-a saí correndo para o jardim. Cheguei a uma parte muito parecida aquela que eu encontrei no jardim da casa do Nigel, mas este era mais gracioso e mais belo, na maneira de ser. Uma brisa suave e um pouco fresca soprou e quando eu senti a presença de alguém atrás de mim, gelei dos pés a cabeça.
-Christian. – consegui murmurar, contra o vento que deu substituição a brisa.
Senti-o a sorrir.
-Lembras-te do nome e tudo. – disse cínico.
Fiz uma careta encarando-o. Tudo o que ia para dizer foi-se a vida, quando o vi. Estava ainda mais bonito, se isso fosse possível claro, mas pelos vistos até é. Vestia a mesma roupa, só que outra t-shirt. O cabelo estava pó despenteado, e por debaixo da t-shirt podiam-se notar os músculos sólidos e perfeitamente esculpidos naquele corpo. Afastando aqueles pensamentos perguntei.
-É um sonho?
Ele olhou para mim, e o olhar que ele me dirigiu provocou-me uma sensação nunca antes sentida, somente com o Brandon.
-Não – curvou o canto da boca.
-Então é real. Então mas e como tu podes aparecer aqui? Quer dizer, isto não tem uma espécie de escudo ou assim? – Perguntei confusa.
Afinal a casa do Nigel tinha, mas só era contra os vampiros.
-Já te disseram que lês demasiado? - Perguntou.
Estava a gozar comigo. E eu detestava isso, por isso respondi-lhe num tom mais convencido que consegui imitar.
-Já. Disseste-me isso na visita passada que me fizeste.
Ele riu-se.
-Não faças isso. Fica-te mal.
-Fica-me mal o que? – arregalei os olhos espantada com tal comentário.
-Essa cara, esse gesto de desprezo e desinteresse. – esclareceu.
-Oh desculpa! – resmunguei.
Estava com frio, os meus pés pisavam o relvado fresquinho, mas com o vento parecia gelo, tinha-me esquecido completamente de calçar alguma coisa.
-Consegues fazer parar um bocadinho o vento? – arrisquei perguntar.
Ele só se riu.
-Pensas que eu sou quê? Uma espécie de super homem? Já te disse para de acreditar naquilo que costumas ler.
Aquilo desta vez zangou-me.
-Desculpa lá. Mas eu também leio sobre vampiros, imortais, lobisomens e essas coisas todas, e como vês afinal existem! – exclamo levando as mãos ao ar – vou me embora antes que fique doente ou assim. Adeus.
Viro costas e começo a sair daquele espaço lindo, mas agora gelado e completamente desagradável.
-Essa pulseira.
Ao ouvir a voz dele e a dizer “essa pulseira” virei-me.
-Que ela têm? Encontrei-a daquela vez no meu sonho – disse – explica-me.
-Explico-te? Tu devias saber. Deixei uma coisa que realmente te pertence. Encontrei-a. Ninguém sabe dela, excepto tu e eu. Ninguém sabe que eu estou aqui excepto nós os dois – diz. Parecia que se estava a rir por dentro. Mas aquelas palavras fizeram com que a minha cabeça parasse completamente de funcionar.
Ele tinha razão. Era difícil aceitá-lo mas tinha mesmo. Ninguém sabia que estávamos ali juntos, e pelos vistos ninguém tinha reparado na minha pulseira, o que era bastante bom. Eu que nunca gostei de ser o centro das atenções.
O Christian aproximou-se de mim, e levantou-me o queixo, olhando-me com aqueles olhos belos, mas letais e gelados.
Beijou-me.
Não tive tempo de reagir. Só despertei uma partezinha do meu cérebro quando contra minha vontade os meus braços rodearam o pescoço dele.
Aquele beijo nada era parecido com aqueles do Brandon. Este era em uma parte frio, mas por outro era quente e doce, demonstrava uma paixão nunca antes sentida. Os seus braços envolveram-me a cintura enquanto os nossos lábios se moviam ao mesmo ritmo.
Quando a razão forçou a entrada até ao meu cérebro interrompi o beijo e afastei-me um pouquinho de nada. Continuei a respiração acelerada dela perto de mim. Não o olhei nos olhos, não queria, aquilo que acabei de fazer ia contra todas as minhas lógicas.
Afasto-me dele e sento-me no relvado abraçando os joelhos. Apesar de continuar a estar vento, eu sentia-me quente. Senti-o atrás de mim e depois ao lado, olhando para longe, tal como eu. Nem ele nem eu falamos durante um bom bocado. Até que eu resolvi quebrar o silêncio.
-Tenho que ir. Amanhã acordo cedo – o que??? Tinha dito mesmo aquilo? Ele nem precisava de saber nada disso. Se ele descobrisse o que realmente iríamos fazer, estava tudo perdido. – quer dizer, até não muito. De qualquer das maneiras tenho que ir. – levantei-me, mas ele pegou-me no pulso.
Finalmente consegui olhar para ele. Desta vez os olhos já não me pareciam tão frios, tinham um suave toque metálico e brilho que eu nunca lhe vi.
-Desculpa. Eu não devia ter feito nada disto! Sou uma estúpida! – Exclamei atrapalhada. Mas em vez de negar o que tinha acabado de dizer ele olhou-me nos olhos.
-Fica comigo esta noite. Aqui. Por favor – pediu.
Não consegui pronunciar palavra. Voltei a sentar-me e encostei-me ao ombro dele.
Eu estava ali, enquanto o Brandon dormia sem saber de nada. A culpa tomou conta de mim, e eu esforcei-me para não chorar. Eu nunca lhe iria contar. Nunca. O último pensamento ou uma frase que me pareceu ouvir antes de cair num sono profundo foi : “Vem ter comigo, eu espero-te, vem”.
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