Elizabeth
Corria velozmente pelo território da casa do Nigel em direcção a floresta, sem olhar uma única vez para trás e sem ligar ao facto de as minhas havaianas estarem desfeitas.
Alcancei-a, parei de correr, começando a andar, avancei por entre as árvores e arbustos gigantescos a observá-los.
Entravam poucos raios da luz, mas os que entravam tinham um tom amarelado e davam a floresta um ar de quem tinha acabado de sair do conto das fadas, até abaixei-me para verificar se não havia nada nas flores, sabia que era estúpido, mas se vampiros, imortais e lobisomens existe, porque não fadas já agora?
Ouvi um barulho da água a cair, fui em direcção ao som. Sai num espaço lindo, rodeado por árvores, arbustos e um monte de flores. Tinha uma cascata, fui até ela. Olhei para a água, era cristalina, notavam-se as pedras que brilhavam, depois os meus olhos arregalaram-se e olhei para o meu reflexo.
-Meu deus! - exclamei, tapando a boca logo a seguir.
O meu cabelo estava despenteado por causa do vento, baixei a cabeça e olhei para os meus pés. Estavam com arranhões e cheias de sangue, para as lavar meti-os na água. Sabia mesmo bem senti-la fresca, lavei a cara e as mãos, depois arranjei o meu cabelo, sei que ninguém me veria, mas o cabelo também não ficou cem por cento arranjado mas pronto, ao menos já não parecia tão feio.
Olhei a minha volta, queria subir a uma árvore, porque era o tipo do sítio que eu adorava e onde gostava de descansar, mas eram todas muito altas, até que avistei duas rochas e uma árvore ao pé delas, era alta e grande, as suas folhas tapavam-na quase toda fazendo parece-la um gigantesco cogumelo. Avancei e subi uma rocha. Bem pelo menos dava para eu subi-la, apesar de ser um pouco complicado - pensei.
Com alguma dificuldade, tal como tinha calculado, consegui subi-la finalmente.
Sentei-me num dos ramos grossos e tirei o telemóvel e o mp4 dos bolsos.
O ecrã do telemóvel mostrava quatro horas de tarde, tinha dez mensagens de alguns amigos meus mas nem me dei ao trabalho de as verificar e muito menos responde-las. Arrumei o telemóvel e liguei o mp4-suspirei-graças a deus, ao menos estava com a bataria cheia, ainda bem que tinha-o carregado antes de vir para a festa.
Meto os fones nos ouvidos e ligo uma das minhas músicas favoritas: The birthday massacre - Happy birthday.
É a música ideal para situações destas, claro que normalmente costuma-se ouvir músicas calmas e blá blá blá, mas sinceramente eu não sou uma rapariga para essas coisas, apaixonei-me pela música quando vi o episódio dos diários do vampiro, onde entra pela primeira vez a Léxi nos anos do Stefan.
Encostei-me ao ramo que estava atrás de mim, aquela árvore é mesmo uma boa escolha, os ramos parecem cadeiras, mas muito, muito confortáveis e se afastasse um ramo pelo menos, conseguiria ver a floresta e o espaço da cascata, maravilhoso não é?
Ainda um dia antes, acordava com o irritante toque do meu despertador, contente por acabar finalmente o décimo primeiro ano. Infelizmente, não dá para voltar o tempo atrás, e afinal, eu queria ou não queria ter mudanças para um lado mais fantástico? Aqui tinha-as eu, a minha frente e a minha disposição.
A minha melhor amiga era uma lobisomem, o namorado dela e o Brandon eram guerreiros imortais, quer dizer, eu nem percebia realmente o significado daquilo, mas vá.
Quando voltasse, isso é se, voltasse, pediria logo desculpa a Aby e voltaríamos a ser as melhores amigas do mundo e nada nos separava. Acho eu.
O meu telemóvel começou a vibrar no bolso. Tirei-o, era a minha mãe. Se não lhe atendesse voltaria a ligar-me inúmeras vezes e acabaria por ligar a casa da Aby, o que eu não queria que acontecesse, atendi.
-Olá! - disse eu, num tom alegre fingido.
-Olá, o que andas a fazer?
Não lhe ia dizer que estava sozinha numa floresta a ouvir música não é? Por isso:
-Ah, estou com a Aby, no jardim, a ouvir música...-bem, aquilo pareceu-me uma desculpa ideal, pelo menos desta vez.
-Está bem, liguei para ver como estavas, vou desligar, e porta-te bem.
-’tá bem.
A minha mãe desligou. Arrumei outra vez o meu telemóvel, e como já estava mais ou menos acalmada, passei para uma música mas calminha: Epica -Tides of Time.
Passei a minha atenção para assuntos mais sérios.
Aquele rapaz não veio fazer a visita assim sem mais nem menos, ele não era vampiro, nenhum deles era, se não, não entrariam naquele terreno, por isso deve ser algum imortal, mas especial. Quer dizer, eu não vi que o Brando ou o Nigel utilizassem um poder qualquer, mas mesmo assim...
Quando ele olhou para os meus olhos, vi surpresa nos dele, o que deduzo, deve-se ao facto de ter encontrado pessoa errada. Ele não veio para lá por minha causa, também acho que não foi por causa do Brandon e Nigel, vieram por causa da Aby, ele não deixou matá-la ao outro, mas também não esperava claramente encontrar a mim...
O que torna esta história ainda mais esquisita e confusa do que já era. Fechei os olhos ainda com a música ligada e desliguei-me.
***
Acordei, já estava tudo escuro, a música continuava a dar.
Tirei bruscamente os fones e desliguei o mp4. Os ouvidos doíam-me, o que raramente me acontecia por causa da música, vi as horas no telemóvel. Eram nove horas de tarde.
Afastei um dos ramos para observar a noite, aquilo tecnicamente nem se pode chamar noite, porque na verdade ainda era crepúsculo, depois ouvi uns passos a virem na direcção da cascata, e fiquei silenciosa com o coração a bater, como não sei o que. Bolas! Como detesto estas situações. Foi como se fosse eu a noite jogar um jogo na psp, e a minha mãe entrar e perguntar: O que estas a fazer? Tinha-me posto de castigo durante uma semana sem portátil, detestei.
Agora era outra situação, alguém estava ali, caminhava devagar, depois lembrei-me das minhas havaianas ao pé da cascata, tinha-as tirado para lavar os pés, e a elas também.
O que me restava? E se aquela gente tivesse voltado? E se fosse um animal qualquer?
Essa opção arrepiou-me muito.
Fiquei em silêncio a escutar os passos, havia muito erva ao pé da cascata, por isso acho que, quem estivesse lá abaixo, não repararia, era a minha única esperança.
Abracei os joelhos e pus-me a escuta.
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